Milena Nardini Bubols
Simplesmente parar, em vez de preencher imediatamente o espaço, representa uma experiência transformadora. Ao esperar, começamos a nos conectar com a inquietação básica, assim como com a amplidão fundamental.
(Pema Chödrön. Orientações para tempos difíceis quando tudo se desfaz. p. 41)
Na modernidade, somos continuamente convocados a resolver demandas e a lidar com um volume crescente de estímulos. Essa sobrecarga cria entraves à possibilidade de uma conexão mais profunda e significativa conosco mesmos. Mas, afinal, o que significa “conectar-se”? O que é “estar com”?
Max Frisch, escritor suíço, em seu livro Homo faber, aponta que a tecnologia “é o truque para eliminar do mundo o mundo como resistência, diluindo-o, por exemplo, por meio da velocidade, para que não precisemos vivenciá-lo” (Frisch, p. 211). Podemos pensar, então, que a aceleração constante dilui a verdadeira experiência de estar no mundo — e, com ela, nossa capacidade de conexão. Conexão consigo, com o outro, e com o transcendente. Apenas funcionamos. Seguimos em um caminhar quase robótico, muitas vezes sem clareza de onde queremos chegar. E, mais grave ainda, perdemos o sabor do próprio percurso: emoções, sensações, percepções, vivências que, ignoradas pelo ritmo apressado, simplesmente nos atravessam sem serem vistas.
A conexão à qual me refiro aqui é algo que primeiramente se estabelece no interior da pessoa consigo mesma, com sua essência, através do acolhimento de si, da autoaceitação, do silenciamento do externo para que se possa deixar emergir o que pulsa no interno. Trata-se de um estado de permanência interior, que remete ao profundo de si.
Após estabelecida a conexão interior, é possível conectar-se verdadeiramente com o outro, já que conectar-se é expandir-se. É transcender o eu. Só se consegue tocar o outro quando se consegue ir além de si mesmo, do seu ego, do seu eu. Rabindranath Tagore (2010, p.129) refere que existe um parentesco de natureza entre os objetos do mundo e nós mesmos no plano material: “Partilhamos uma mesma textura fundamental com o pó dos caminhos, assim como com as pedras e os vegetais, os animais e a humanidade inteira. Todavia, no nível em que nosso ser de verdade intervém em sua unicidade, essa semifusão entre tudo e todos desaparece”. Possuímos uma individualidade sentida como este eu separado, mas ainda assim estamos conectados. Paradoxalmente, somos um só, mas só percebemos essa interconexão quando primeiro reconhecemos e habitamos a nossa interioridade.
Outra forma de conexão é a conexão com o sagrado, com algo além de nós. Susan Andrews aponta que a conexão com o sagrado, com o espiritual, traz um senso de significado de vida, de não estarmos neste mundo apenas por nós mesmos, mas por algo maior que traz sensação de plenitude e de felicidade. Para ela, em casos extremos, a desconexão pode levar à doença e até mesmo à morte, sendo assim um importante pilar vital.
Por isso, precisamos de um momento de interrupção — uma freada nesse movimento compulsivo — para simplesmente silenciar. Ser. Observar dentro e fora. Acolher-se. Acompanhar-se.
Assim como uma semente não germina quando lançada em um solo continuamente pisado, também nós não florescemos sem pausa. A semente precisa de terra boa, de um solo fértil. E qual seria nosso solo fértil?
O silêncio. A auto-observação.
Sem eles, não tocamos a essência. Não ouvimos a alma. A semente não brota.
O silêncio que nos conduz às bases da alma segue leis diferentes da aceleração constante. Ele pede pausa. Pede presença. Pede reconexão.
Então… como está a sua conexão?
Andrews, S. A Ciência da Felicidade. Entrevista com Dra. Susan Andrews no Diário da Região, São José do Rio Preto. 2012.
Chödrön, P. Orientações para tempos difíceis quando tudo se desfaz. Rio de Janeiro: Gryphus, 2012.
Frisch, Max. Homo Faber. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1982.
Grün, A. Crescer na Mudança – como podemos nos tornar mais livres, mais autênticos, mais serenos e mais esperançosos. Petrópolis: Vozes. 2024.
Tagore, R. A Morada da Paz. São Paulo: Verus. 2010.