Estava no aeroporto, muitas esteiras rodando malas coloridas e de todos os tamanhos, e eu aguardando a minha. Uma pequena mala vermelha, com um cadeado bem visível colocado ali por segurança. Dentro dela, algumas preciosidades, um incenso de rosas, chás medicinais, roupas usadas, lembranças de uma viagem de aventuras, conhecimento e muitas descobertas.

A esteira havia se esvaziado. Olho em volta e aquela multidão havia desaparecido. Ali só restávamos eu e um casal. Ambos atônitos e temerosos - a gente nunca espera perder a bagagem. É uma sensação estranha, como se nos arrancassem  memórias e apagassem as provas irrefutáveis da vida vivida, daquele tempo de trocas, risadas, pensamentos e sensações que se escoaram pelos dedos como areia. É preciso desapegar, pensei eu.

Mesmo assim, resolvi ir até o balcão da companhia aérea e reclamar. Queria aquele tempo de volta. Queria colocar a areia dentro de uma garrafa impregnada com os bons momentos vividos da minha viagem....

Ao meu lado novamente o casal. Eram americanos, brancos, altos e visivelmente confusos. Ali não havia como estabelecerem uma comunicação sem mal-entendidos. Ofereci-me para ajudar e logo estávamos conversando sobre nossas viagens. A mala perdida ficara em segundo plano depois que me contaram extasiados, sobre o que viram e testemunharam no Brasil: milagres, muitos milagres.

Esse casal havia participado de um encontro religioso, cujo objetivo era promover a cura através da fé e das orações, feitas em conjunto, num grande grupo. Pessoas voltaram a enxergar, ouvir e andar, tumores diminuídos visivelmente de uma hora para outra, cânceres curados. Eles me falavam e se emocionavam, agradecidos e entusiasmados. Queriam compartilhar aqueles milagres como se assim pudessem propagá-los, convidando-me a embarcar naquela corrente de água pura, e deixar fluir .... senti como se aqueles milagres fossem um acontecimento sem espaço-tempo definido, como se estivessem acontecendo ali na minha frente. Como se o importante não fossem os milagres em si, mas aquela corrente por onde eles navegavam, aquelas águas puras e cristalinas do Grande Mistério. Era ali que tudo acontecia. E acontece...

Como eu os ajudei a recuperar suas malas junto à Companhia aérea, ao chegar a hora de nos despedirmos, eles me disseram: “gostaríamos de te agradecer de alguma forma pela ajuda prestada. Tem algo que você precise ou queira que possamos fazer? Quem sabe podemos rezar para que uma graça lhe seja ofertada?” E prontamente eu pedi: “sim, por favor, rezem para que minha mala seja encontrada!”

Assim o casal fez: de mãos dadas, na minha frente, eles pediram por essa benção e em seguida partiram. E ali eu fiquei, novamente sozinha. O saguão começava a se encher novamente, novos voos haviam chegado. Eu pensei que era hora de me render e seguir para casa, mesmo sem minha mala vermelha. Peguei minha bolsa e comecei a caminhar, quando um pensamento me ocorreu. Era mais uma vontade do que um pensamento, que encaminhava meu corpo e meu olhar na direção de uma esteira que ficava na extremidade do saguão, distante de onde eu estava e da esteira onde as malas de meu voo haviam sido colocadas. Algo em mim sabia: um pontinho vermelho acabava de aparecer ali, deslizando silenciosamente por aquela corrente, como um pequeno barco a vela. Milagres existem? Encontrar minha mala com o pequeno cadeado apenas três minutos depois do casal rezar por mim poderia ser um pequeno milagre...

Mas o que a ciência já compreende e o que ainda desafia o conhecimento científico sobre esse tema? Ao longo da história, relatos de curas milagrosas e remissões espontâneas de doenças graves despertaram tanto admiração quanto perplexidade. Na medicina contemporânea, esses fenômenos são estudados sob o termo remissão espontânea, que designa a regressão ou desaparecimento de uma enfermidade — muitas vezes um câncer — sem que haja tratamento considerado suficiente para justificar tal melhora. Embora raros, esses casos estão bem documentados em literatura científica, especialmente em tumores como melanoma, carcinoma renal e linfoma.

Diversas hipóteses tentam explicar o que pode ocorrer em situações assim. A mais aceita é a da ativação do sistema imunológico, que, em circunstâncias excepcionais, reconhece e destrói células doentes. Em alguns casos, infecções ou inflamações intensas parecem “acordar” o sistema imune, levando-o a agir contra o próprio tumor. Outras teorias incluem processos de apoptose (morte celular programada), alterações genéticas corretivas e mudanças no microambiente tumoral, tornando-o hostil à proliferação de células anômalas.

Além dos mecanismos biológicos, há crescente interesse nos fatores psicológicos e espirituais que acompanham essas remissões. Pesquisas qualitativas com pacientes indicam que transformações interiores — como fortalecimento da fé, propósito de vida, sentimentos de gratidão e mudanças na forma de se relacionar consigo e com os outros — frequentemente antecedem a melhora física. Embora ainda não se possa afirmar uma relação causal direta, a psiconeuroimunologia tem mostrado que estados emocionais positivos, redução de estresse e práticas contemplativas podem modular processos inflamatórios e favorecer a saúde integral.

A ciência, contudo, reconhece seus limites diante de fenômenos tão complexos. A raridade dos casos, a dificuldade de documentação rigorosa e a natureza singular de cada experiência tornam impossível estabelecer um modelo único. Por isso, mais do que buscar provas de “milagres”, muitos pesquisadores propõem compreender como corpo, mente e consciência interagem de maneiras que ainda escapam à explicação convencional.

É justamente nesse ponto que as iniciativas da AlmaComCiência se inserem: ao promover o estudo e a divulgação de temas que integram ciência, espiritualidade e consciência, nossa escola amplia o diálogo transdisciplinar e convida à investigação aberta e responsável de fenômenos que transcendem os limites tradicionais do conhecimento. Explorar os mistérios da cura espontânea não significa abandonar o rigor científico, mas reconhecer que a saúde humana é também expressão da complexidade da vida e da potência transformadora da consciência.

                                                                                                                              Maria Cristina M. de Barros

 

Referências

Chida, Y., & Steptoe, A. (2008). Positive psychological well-being and mortality: A quantitative review of prospective observational studies. Psychosomatic Medicine, 70(7), 741–756. https://doi.org/10.1097/PSY.0b013e31818105ba

Cole, S. W., & Sood, A. K. (2012). Molecular pathways: Beta-adrenergic signaling in cancer. Clinical Cancer Research, 18(5), 1201–1206. https://doi.org/10.1158/1078-0432.CCR-11-0641

Turner, K. (2014). Radical Remission: Surviving Cancer Against All Odds. New York, NY: HarperOne.

O’Regan, B., & Hirshberg, C. (1993). Spontaneous remission: An annotated bibliography. Sausalito, CA: Institute of Noetic Sciences.

Papac, R. J. (1998). Spontaneous regression of cancer: Possible mechanisms. In Vivo, 12(6), 571–578.

Kleef, R., Jonas, W. B., Knogler, W., & Stenzinger, W. (2001). Spontaneous regression of cancer: Current insights and therapeutic significance. Alternative Therapies in Health and Medicine, 7(5), 48–57.

Chang, C. C., & Storer, B. E. (2021). The spontaneous remission of cancer: Current insights and therapeutic significance. Cancer Treatment Reviews, 99, 102238. https://doi.org/10.1016/j.ctrv.2021.102238

Turner, K. A. (2003). Psychological changes preceding spontaneous remission of cancer: An interview study. Advances in Mind-Body Medicine, 19(1), 22–29.

van der Maase, H. (2018). Clinical holistic medicine: Recovery of the human character and the integrated human. International Journal of Person Centered Medicine, 8(3), 22–32. https://doi.org/10.5750/ijpcm.v8i3.739